Contador de Visitas

Seguidores

Razão e sentimento

Razão e sentimento
Minha foto
Uma menina-mulher sonharadora convicta, pore´m de uma racionalidade necessária.

.

.
domingo, 8 de junho de 2014

E-mail

De: Túlio

Para: Mayra
Assunto: Saudade

Oi meu amor, como você está? Mesmo depois que você me deu um fora eu sinto sua falta. Vamos marcar um sorvete, um cinema, sei lá.


P.S.: Não vou desistir de você.

Lagarta Listrada


Isso aconteceu há mais ou menos um ano. Era uma manhã de quinta-feira e as quintas-feiras eram muito puxadas, porque passavam o dia inteiro na escola. A mochila parecia de viagem, havia de tudo nela: xampu, sabonete, escova e creme dental, toalha de banho, perfume, pente e alguns ainda levavam uma blusa extra para, caso necessário, fazer a troca, sem falar nas meninas que ainda tinha todo o apetrecho de maquiagem e enfeites para o cabelo ― sabe como é, não vão tomar banho sem passar pelo menos um pó e um gloss ―. Passavam o dia na escola, reclamavam muito, mas quando tudo isso acabar irão sentir faltar e lembrar dos almoços, dos banhos, da algazarra e principalmente da amizade que fizeram. Acredito que por isso eram tão amigos.
Aulas da manhã tinham corrido como o esperado professores fazendo professorices e alunos fazendo alunices, só Mayra estava meio pra baixo. Havia brigado com Felipe, na verdade ela não gostava muito dele, queria terminar e não sabia o que dizer. Não sabia o que dizer, porque ela não sabia porque queria terminar, mas não senti por ele o que Carlos Drummond descreve em sua poesia. Havia lido As Sem Razões do Amor :
"Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse."
e não era nada daquilo que ela vivia. Quando o autor escreve ele parece estar completamente encantado pelo outro e ela nunca havia se encantado com Felipe, nunca se achou em estado de graça como é dito. Ela queria mais. Queria apaixonar-se de verdade. Queria viver um amor que só em falar no nome do amado, seu ser se envolvesse todo de uma energia mágica e, definitivamente, não acontecia nada daquilo. Estava mais para Manuel Bandeira em seu poema Namorados, sendo o inverso: Mayra seria o eu-lírico e Antônia seria o Felipe: No caso seria mais ou menos assim:
A moça chegou-se para junto do rapaz e disse:
-Felipe, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
O rapaz olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
O rapaz se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dele.
A moça prosseguiu com muita doçura:
-Felipe, você parece uma lagarta listrada.
O rapaz arregalou os olhos, fez exclamações.
A moça concluiu:
-Felipe, você é engraçado! Você parece louco.

Se desse pra trocar "louco" por "idiota" ainda ficaria melhor. Ela não entendia o que estava fazendo em um relacionamento como aquele. Mesmo assim com tantos motivos aparentes, não podia simplesmente chegar para ele e dizer: 

Felipe, é o seguinte, você é um idiota, não tem encantamento, não sabe me fazer suspirar e eu preciso suspirar.

Resolveu então escrever uma carta. Subiu as escadas que dava para as salas de aula, entrou e aproveitou o silêncio para se inspirar. Escreveu tudo numa enrolada só, mas estava bom. Era alguma coisa, depois mostraria para professora de Literatura que sabia escrever muito bem e era sempre cúmplice das meninas nessas histórias de amor e ela daria uma melhorada.

O problema foi que sentiram a falta de Mayra lá por baixo e pediram para que alguém subisse pra ver o que estava acontecendo. Que alguém que nada. Correram uns seis para vigiar a colega e descobrir o que ela estava fazendo sozinha na sala. Arthur foi o primeiro a entrar e arrancou a carta das mãos de Mayra. Ela soltou um gritinho e fez menção de correr para pegar a tal carta. Seria ridículo um menino lendo aquelas coisas horríveis que ela escrevera. Ainda que fosse uma menina.
Nesse instante, todos gritaram:
― Corre Arthur, corre!
E Arthur correu. Todos saíram atrás dos dois tentando impedir Mayra de pegar a carta de desamor. Arthur corria e virava-se pra trás mostrando a carta e fazendo que ia lê-la. Mayra gritava que não lesse entre risos e solavancos tentando soltar-se dos braços dos amigos. Todos riam, era uma perfeita diversão. Era aquilo que ela precisava para mudar aquela quinta-feira que não estava nada agradável. Soltou-se enfim dos amigos e correu para pegar a tal carta.
Ficaram frente a frente com corpos balançando. Ele com as mãos para o alto segurando a tal carta e ela tentando pegar, sorrindo e gritando ao mesmo tempo. Era uma mistura de alegria e vergonha. Já pensou se ele lesse aquilo para todos.
― Cartinha para o amado, hein? ― Arthur falava bricalhão.
Os outros já tinham até arranjado outra distração. E eles lá naquela luta boba e gostosa de entrega, não-entrega. Arthur parou. Mayra parou. E Mayra deu-se conta da situação. Ela estava olhos nos olhos com Arthur, aquele menino que ela nunca tinha reparado, que era seu amigo apenas. Mas naquele instante viu estrelinhas, ouviu sinos de amor. Era assim que ela queria sentir-se.
Arthur percebeu a estranheza da situação e entregou-lhe a carta meio sem jeito, pois pela primeira vez tinha reparado em Mayra, em seus olhos puxados e amendoados. Que olhos doces! Será porque ela está amando? Pensou .
O instante mágico se desfez e Mayra percebeu que era aquilo que ela queria sentir. Aquele frio na barriga, aquele olhar, aquela emoção e alegria. Não o que estava vivendo; uma relação sem graça, morta e descabida. Mas precisava arranjar uma boa desculpa quando Felipe perguntasse se ela estava apaixonada por outro.

A aula da tarde transcorreu bem, Arthur sentou-se ao seu lado e sempre que dava, sem que o professor percebesse ela falava sem som Cartinha de Amor.. zombando dela e não sabendo que era um fim de namoro. O professor pediu que fizessem duplas e lá estava Mayra e Arthur um ao lado do outro fazendo um trabalho Matemática. Por muitas vezes Mayra olhava para Arthur ainda abobalhada por não ter percebido que o amor estava ali ao seu lado.
sábado, 7 de junho de 2014

ARTHUR e BRUNA


Domingo à tarde já não é um dia, nem um horário muito festivo e quando você tem que se desculpar com alguém por algo que você fez e não tem nem desculpa é bem mais complicado.
Ainda pela manhã quando Arthur acordou lembrando do que fizera na noite anterior e ainda sem saber exatamente o que tinha lhe dado para agir daquela forma, ligou para Bruna que claro e evidente não atendeu. Quem atenderia, né? Até a mais boba de todas as criaturas daria um certo gelo depois de uma cena explicita e pública de ciúmes. resolveu então mandar mensagem.
Bruninha, precisamos conversar. Te liguei, mas você não atendeu. Tudo bem, eu entendo, mas ó, pensa melhor, ou pelo menos me deixa explicar.
Mandou a mensagem, mas não tinha a menor ideia do iria dizer. Esperava que seu charme  e sedução, ao vivo pudesse contornar tudo aquilo, mas teria que inventar algo pra lá de mirabolante. Passou o dia meio estranho, evitando pensamentos do que aconteceu. Não adianta pensar quando já sabemos o que está acontecendo. Mas ele havia demorado tanto pra conquistar Bruna e agora que estava tão perto, aquilo. Pegou o telefone e ligou para quem também era homem e quem sabe poderia ajudar.
ARTHUR: ― Dário, e aí cara. Tudo bem?
DÁRIO: ― Oi, cara. E aí? Como tá?
ARTHUR: ― Mais ou menos, né? Tenho que ir na Bruna agora à noitinha. Na verdade vamos nos ver na missa e depois pretendo conversar com ela.
DÁRIO: ― Não queria ser você.  Mas e aí, você já pensou no que vai dizer?
ARTHUR: ― Não. Te liguei pra isso.
Dário soltou uma risada preocupada. Ele não tinha a menor ideia do que dizer. Estava até feliz por não ser ele naquela situação. Só o fato de estar com uma e pensando em outra já era pra lá de constrangedor, imagine se tivesse feito uma ceda daquelas. melhor nem pensar.
DÁRIO: ― Bem, você vai ter primeiro que se decidir né? Por que não adianta nada ir cheio de papo pra Bruna se for para continuar Pensando na Mayra.
ARTHUR: ― Cara, eu não gosto da Mayra, você sabe. Qual é?
DÁRIO: ― Qual é digo eu. Você vive dizendo que não gosta da Mayra, mas o que você fez ontem não é coisa de quem não gosta. Acho que você deveria estar se perguntando se gosta mesmo da Bruna. Aí sim estaria fazendo a coisa certa.
Arthur se despediu e desligou o telefone. Dário não tinha ajudado em nada e ele daqui a algumas horas estaria frente a frente com Bruna e precisaria ter algo a dizer. mas o quê?
Dário tinha aqueles namoros perfeitos. Era apaixonado por Tifany e antes de namorá-la não tinha olhos para mais ninguém. Já tinha sido uma dificuldade conseguir namorá-la, jamais pensaria em outra ou socaria um cara por pedir uma "amiga" em namoro.
A situação era realmente complicada.
***
Arthur, cabeça baixa, passo lento entrou na igreja, fez o sinal da cruz ― dessa vez tinha também um pedido de livrar-lhe daquele mal que ele cavara ― e avistou Bruna sentada no banco de sempre, caminhou até lá, sentou a seu lado num silêncio culposo, talvez fosse melhor dizer doloso*, já que seu crime havia sim, dolo. Segurou em sua mão. Ela não retirou, mas também não deu um mínimo olhar para ele. Ele ainda teria um tempo, um hora no mínimo para pedir a Deus que o iluminasse não só nas palavras como também na decisão.
Terminada a missa, os dois saíram de mãos dadas. Já é um bom sinal. Pensou. Se ela me deixou segurar sua mão como antes, significa dizer que eu tenho chances. Caminharam até lá fora e Arthur começou aquela difícil conversa.
― Bem, antes de mais nada queria te perguntar como você pode sumir daquele jeito. Fiquei preocupado, sabia? Te liguei várias vezes e o celular só dava desligado.
― Vi bem sua preocupação. Se você tivesse preocupado mesmo teria ido até minha casa saber se eu havia chegado bem. ― disse numa voz que misturava educação, ego ferido e ressentimento.
― Poxa, me desculpa.
― Te desculpar? ― encarou Arthur numa expressão firme com a testa franzida, como quem estava realmente achando um absurdo tudo aquilo. ― Você tem coragem de simplesmente me dizer me desculpa? Você realmente não é quem eu pensava, Arthur.
― Poxa, Bruna. Nem te fiz nada. Tô te pedindo desculpas porque se você foi embora daquele jeito é porque se aborreceu com algo.
― Ah não. Não. ― transtornada, mas mantendo a calma e a educação. ― Não venha me dizer que não me fez nada. Você acha que me fazer de palhaça na frente de seus amigos e da Senhorita Perfeitinha foi pouco?
― Senhorita Perfeitinha? Ela não é perfeitinha como você está dizendo.
Bruna balançou a cabeça como quem não acreditava que ele estava realmente ali tentando se desculpar de uma mancada sem tamanho e ainda tinha a coragem de defender a tal Mayra. Sua raiva aumentava e era quase ódio já, quando respirou fundo e decidiu dizer.
― Arthur, olha... se você não sabe o que quer...
― Eu sei, eu quero você. ― interrompeu imediatamente.
― Como eu estava dizendo. Se você não sabe o quer, deveria pensar melhor. Eu sei que a gente não namora e que você, se não tivesse feito tudo que fez na minha frente nem precisaríamos estar aqui tendo essa conversa difícil, pode fazer de sua vida o que bem quiser. mas lembre-se sempre que você está lidando com pessoas, está mexendo com sentimentos. E claro, antes de mais nada tem que decidir com absoluta certeza o que quer. A gente está se conhecendo e quero deixar bem claro que não gostei do que conheci de você ontem.
― Eu quero você. A Mayra é minha amiga, só isso. Aliás ela é minha amiga há muito tempo e eu estava defendendo uma amiga, só isso.
― Uma amiga... Sei... agora você quer que eu seja burra e cega. Não basta ter sido feita de idiota... entendo. Acho melhor você calar Arthur.
― Então diga que me perdoa, já que você acha que te fiz de tola.
Arthur chegou mais perto de Bruna, abraçou-a carinhosamente. e cochichou uma desculpa em seu ouvido. Ao som daquela voz ali tão perto dela, roçando os lábios em sua orelha Bruna derreteu e perdoou Arthur. Mas estava certa que algo está em perigo e esse algo era seu futuro namoro.
***
Quando Arthur chegou em casa estava aliviado por ter conseguido contornar a situação com Bruna, mas estava preocupado, pois Bruna tinha razão no que tinha dito. Ele precisava decidir o que queria. Queria Bruna. Estava certo. Ou pelo menos era isso que ia dizer para si mesmo. Até porque seria ridículo namorar Mayra depois da cena que fez. Passara vergonha diante dos amigos e iria ter de aguentar a zoação dos amigos por um bom tempo. Agora, mais relaxado podia lembrar: como Mayra estava linda naquele vestido azul royal. Aquela cor lhe trazia realmente algo de encantador. Pensou em escrever um e-mail para Mayra, mas pra que mesmo? Não tinha pra falar com ela. Antes que pudesse decidir se sim ou não. O celular vibrou em seu bolso. Era Dário.
― E aí, Arthur, deu certo? Conseguiu resolver com quem você vai ficar? ― e deu uma risada.
― Ahh, Dário, você não tem o que fazer, não? Ligar pra falar besteira. ― desligou o celular aborrecido.


* Crime culposo: sem intenção. Crime doloso: com intenção

sexta-feira, 6 de junho de 2014

MAYRA


     Estava caminhando pelas ruas próximas de sua casa, caminho do colégio, e como moravam no mesmo bairro, apesar de difícil pelos horários desencontrados e de uma certa distância da casa um do outro, não era nada impossível encontrar Arthur. E foi exatamente o que aconteceu. Quando dobrou a esquina, quase se esbarraram. 
     Não era comum que Arthur tivesse ali, mas na hora Mayra nem lembrou de lhe perguntar o que ele fazia aquela hora da manhã naquelas paragens. Houve comoção de ambos. Ela foi a primeira a falar. No início com voz trêmula, nervosa, porém, imediatamente lembrou-se que no episódio da festa ela tinha saído por cima e deu uma de superior, claro.
― Oi senhor nervosinho, tudo bem? O que deu em você, hein?
― Isto. ― falou de supetão, numa voz macia e um pouco rouca como de quem acabara de acordar.
     Ao dizer esse simples monossílabo, Arthur se aproximou de Mayra, segurou sua mão esquerda delicadamente e com a direita acariciou seu pescoço, levando os dedos até a nuca da menina que se arrepiava  num frenesi de prazer e espanto. Parecia que havia levado um choque elétrico que vinha de cima para baixo. Um fervilhar de milhares de formiguinhas subiam instantaneamente por todo seu corpo como se se materializassem. Nunca havia sentido aquilo. Não daquele jeito. Deve ter sido a surpresa do momento. Ela jamais imaginou que ele pudesse fazer algo assim, tão de repente, tão sem palavras,  sem explicações.
     Arthur fixou seu olhar, que estava, naquele momento, meio caído, como se se fechassem em câmera lenta e entreabriu minimamente a boca. Seus lábios era carnudos e entre eles apareciam umas pontinhas de dentes brancos, o hálito quente e com cheiro de hortelã tinha o poder de hipnotizar Mayra que não mexia um músculo sequer. 
     A essa altura Arthur tinha os olhos completamente fechados e a distância entre os dois era de milímetros. Mayra sentiu o tórax do amado encontrar o dela e mais uma infinidade de formigas passeavam por seu corpo. Fechou os olhos para esperar pelo calor daquela boca que tantas vezes pronunciara palavras sem interesse algum, mas que agora estava ali, entreaberta só para ela. 
     A respiração ofegante de Arthur já esquentava o rosto de Mayra. Não que ela precisasse ser esquentada, pois junto das formiguinhas vinha também um calor Deus sabe de onde que tomou todo seu ser.
Então tudo aquilo: a chegada triunfal com Bruna a tiracolo, os olhares no aniversário e o soco, era para lhe dizer que a queria? Que maravilha! Se assim fosse ele poderia até desfilar com Bruna outras vezes contanto que o resultado fosse exatamente aquele. 
     Tudo isso foi pensado num átimo e Mayra preferiu aproveitar o momento a ter que ficar pensando nos porquês daquilo tudo.
Os lábios finalmente se encostavam. Um frio descia espinha abaixo e um arrepio tomou conta de seu braço que estava na cintura de Arthur numa inclinação ascendente chegando-lhe ao meio das costas, enquanto o outro descia em linha reta para espalmar as mãos geladas de nervosismo nas de Arthur. Sentia toda a textura da pele dele e a guardaria para mais tarde quando lembrasse desse momento, fechar os olhos e conseguir senti-la de novo. As bocas se abriram mais um pouco, os dedos se entrelaçaram e ...
― Meu Deus, estou atrasada pra escola!
     Atordoada sentou de repente na cama e entendeu que era domingo e que todos dormiam ainda. Levou as mãos à cabeça. Era só o que lhe faltava sonhar com Arthur depois de tudo que ele havia aprontado. Depois de levar a tal Bruna para a festa onde ele tinha absoluta certeza que ela estaria e desfilar com ela como se fosse um trofeu. Ela nem era tão perfeita assim. tinha dente de cavalo, isso sim. Dente de Cavalo.
― Devo estar louca mesmo.
     Voltou a deitar, dessa vez olhos arregalados e ardendo, cabeça girando num enjoo de quem havia bebido mais que refrigerante. Será que estou definitivamente louca? Pensou enquanto esfregava os olhos que teimavam em permanecer fechados, mesmo que por dentro eles tivessem bem abertos e ardendo em sono. Havia chegado da festa às duas da manhã, nem tinha tido tempo de descansar direito e agora aquilo.
     Bateu com a palma da mão no travesseiro para afofá-lo e deitou-se de lado. O rosto de Arthur dançava em seus pensamento. Arthur, Arthur, Arthur, era sempre Arthur. Até ela já estava enjoada daquilo. Sempre as voltas pensando em o que ele estava fazendo, com quem ele estava, como ele estava. Sempre e sempre olhando os e-mails na esperança de novas palavras. Se ele não me quis enquanto estudávamos, por que me quereria agora? por outro lado. Se ele não me quer, por que socar o Túlio? 
     Túlio... fora lindo o que ele fizera. Poxa, se eu pelo menos conseguisse enxergar outro alguém que não fosse o Arthur. Mas não era possível. E agora aquela novidade, Arthur não lhe deixava nem dormir direito.
     Suspirou e voltou a pensar naquele quase beijo, um beijo que não aconteceu e que sabe-se lá se vai acontecer algum dia, mas que agora lhe fazia muito bem lembrar do rosto dele, das mãoes juntas e apertadas, dos rostos quase colados, dos olhos se fechando aos poucos. Fora tão real... ele estava ali segurando minha mão, me envolvendo por inteiro, corpo a corpo, boca a boca e num piscar de olhos, quero dizer, num abrir de olhos era tudo ilusão.

     Uma luz fraca entrava por sua janela, o dia já estava raiando. Mayra ainda se revirou pra lá e para cá algumas vezes, até que caiu num sono restaurador.
quinta-feira, 5 de junho de 2014

FESTA parte III

     Mayra saiu daquele escritório decidida. Não iria mesmo ficar por baixo. Pisando firme e com o apoio de Letícia caminhou de volta para festa, por sua sorte Túlio estava ali na passagem da pista de dança.
     ― Pronto para retomar a diversão.
     ― Sempre.
   Puxou-o pela mão com um sorriso nos rosto. Não sei onde ela colocou toda a dor que a consumia. Amanhã eu vejo se vale a pena chorar, mas perder a minha festa por causa de um alguém que não sabe o quer e que faz péssimas escolhas, ahhh... isso eu não vou mesmo. Pensou alto, mas com o barulho da música ninguém a ouviu.
     Apesar de super bem acompanhada, não conseguia parar de olhar na direção de Arthur. A cada volta que dava seus olhos se dirigiam pra lá. Ele se levantou e caminhou para o balcão de coquetéis. Era a deixa perfeita. Mayra sentiu uma sede repentina, deu uma desculpa a Túlio e caminhou até ele.
     ― Olá, que bom que você veio. ― fingiu que não o tinha visto.
    Puxou-o para si, sentindo seu perfume amadeirado, perfume de homem. ― 212 Man com certeza. ― pensou e deu-lhe um beijinho no rosto aproveitando-se e beijando quase o canto da boca num cumprimento saudoso de amigos.
     ― E aí, há quanto tempo... tá sumido, hein? Apareça.
     E antes que Arthur pudesse falar qualquer coisa, Mayra saiu com seu coquetel à mão. Arthur não esperava por essa e não lhe fez nada bem vê-la linda como estava. Ela sempre tivera o poder de tirá-lo de seu equilíbrio. Tudo bem que ele não acreditasse que era só atração por sua beleza física e seus olhos que são expressivos como nenhum outro, mas depois de ter ficado pensando nela assim do nada como vinha acontecendo nos últimos dias, estava realmente em dúvida.
     Como poderia pedir Bruna em namoro se ela não tinha o poder de enfeitiçá-lo como Mayra tinha. Poxa, como ela está linda! Não lembrava dela desse jeito. Voltou para mesa onde Bruna o esperava e foi tomado por uma sensação estranha. Ele simplesmente não sabia se queria ficar ali ou se já deveria ir embora. Mas tão cedo! O que dizer para sair agora? A festa mal começou. Decidiu que não havia acontecido nada e além do mais ele estava ali com aquela mulher linda, pra que pensar em Mayra?
     O fato é que agora todas as vezes que Mayra olhava em direção à mesa de Arthur, ele estava olhando pra ela. Agora sim era fácil sorrir. Túlio era lindo, gostava dela, então pra que se chatear com essa tal Bruna que na verdade não era ninguém para todos que estavam ali?
     Chegou a hora de cerimonial. Tudo muito pomposo. Homenagens de todos os lados. Dário fez uma declaração de amor lindíssima para Tifany que se derreteu em romantismo para com o amado. Todos aplaudiram e os amigos foram homenageá-la como é próprio do evento. Mayra foi a primeira a se candidatar.
     ― Tifany, nossa amizade já dura há alguns anos, você é uma amiga linda que está presente em momentos bons e ruins. Quero tê-la em minha vida por longos anos.
     Um a um, cinco ou seis amigos falaram de como Tifany era companheira, amorosa, linda, meiga e todos os adjetivos que lhe são inerentes. O último deles foi Túlio.
    ― Nessa noite linda, desejo a você Tifany, minha amiga,  felicidades, amor e saúde e lhe peço licença para falar para uma pessoa que mexe com meu coração...
     Tifany olhou feio para Túlio. Sabe-se lá o que ele iria dizer. Além do que o aniversário era dela, não cabia falar de outro alguém. Sem mais o que fazer, observou a cena, achando meio fora de propósito.
     ― Mayra...
     Quando Túlio disse esse nome todos olharam pra Mayra que estava realmente surpresa com a cena. Claro que ela sabia que Túlio dava em cima dela, mas nunca pensou que era algo a nível de falar em um microfone no meio de um monte de gente. Ao mesmo tempo a vaidade feminina falou mais alto e ela se sentiu no poder. Assim, Arthur veria o que ele estava perdendo.
     Arthur, por sua vez, ao ouvir o nome "Mayra", seu coração deu um pulo e um calafrio percorreu toda sua espinha, arregalou os olhos e se aproximou do tablado cerimonial.
     ― Você desde sempre me chamou a atenção e não é segredo pra ninguém o que sinto por você. ― pausa dramática ― Você quer namorar comigo?
    Mayra abriu a boca em um espanto feliz. Mas uma coisa era certa, ela estava em maus lençois. Como dizer a Túlio que apesar dele ser um gato, gentil, delicado e romântico, do jeitinho que toda menina sonha, ela não o queria? Engoliu a seco e soltou um grito.
     Naquele exato momento, Deus sabe como, Arthur havia dado um soco na cara de Túlio. Dário que estava perto, separou os dois e levou Arthur para longe dali.
     ― O que deu em você, cara? Você não é disso.
    ― Não sei, Dário. Quando eu vi ele pedindo a Mayra em namoro, eu me descontrolei e nem sei como eu cheguei até ele. Realmente não sou assim. O que está acontecendo comigo? ― sentou-se e baixou a cabeça apoiando-a pelos braços.
    ― Bem, quero lembrá-lo que você trouxe a Bruna pra festa e deve uma satisfação a ela.
     ― Ai meu Deus. Esqueci completamente dela.
     Levantou-se e voltou para encontrar bruna, que havia saído para não passar a vergonha de ver seu namorado brigando por causa de outra. Se bem que ele nem havia pedido-a em namoro, mas Bruna sentia-se a namorada desde o momento que Arthur disse que a levaria para o aniversário de Tifany. Ela entendeu que seria uma apresentação oficial aos amigos, mas estava muito claro que o motivo era bem outro.
  Depois de um pequeno tumulto tudo voltou ao normal. Túlio foi até Mayra para saber a resposta. Esta mesmo com o coração na mão, com medo de perder um ótimo namorado, alguém que podia lhe valorizar como ela merecia, não podia ser covarde com Túlio, exatamente pelo mesmo motivo.
    ― Túlio, você é um fofo, eu adoro sua amizade, mas... é só isso, entende?
    Túlio não entendia, mas de nada adiantava apelar. Um homem não pode se humilhar assim.
   ― Que pena, Mayra. O que sinto por você é verdadeiro, mas entendo seu ponto de vista e até agradeço por sua sinceridade. É o Arthur, não é?
    ― Como posso negar a você algo tão óbvio. Mas ele é um idiota. veio só se exibir com essa tal Bruna aí.
    ― Ela não chega a seus pés. E ele não sabe o que está perdendo.
  Mesmo diante do fora segurou o rosto de Mayra entre as mãos de uma tão forma delicada e doce, que fez ela fechar os olhos e deu um beijo em seus lábios. O beijo estava mais para um selinho, mas foi dado com tanto amor que deixou Mayra meio arrependida de não tê-lo aceitado como namorado. Mas havia passado por muitas emoções num dia só, era melhor mesmo que não decidisse nada no calor daquela noite fervorosa.
    Não havia mais clima para Túlio que depois do beijo, foi embora. Na verdade não havia mais clima nem para Mayra, nem para Arthur que se retirou sem que ninguém o visse.

    A festa rolou até altas horas e Mayra, mesmo sem clima ainda dançou um pouco. Só depois da meia noite foi embora.
quarta-feira, 4 de junho de 2014

FESTA parte II




Estava ali a alguns metros de distância de Mayra, Arthur... lindo como sempre. Já fazia um tempo que ela não o via, um mês, dois, talvez mais, apesar de vê-lo todo dia em seus pensamentos, mas naquele dia ele estava superior a tudo que ela havia imaginado ou lembrado. Vestia calça social e blazer risca de giz e uma blusa rosa bebê, sapato muito bem polido e sorria para a recepcionista que recebia de suas mãos os exibíveis. Dário veio recebê-lo:
― Vamos chegando ― disse com um sorriso franco  e aí, cara. todo nos panos hein? ― brincou, sem saber se estava tudo bem entre eles devido o tal e-mail.
Pegou-o pelo braço e aproximou-se  do ouvido de Arthur cochichando:
― A Mayra está aí, se segura.
Soltou um risinho de quem sabe que será uma noite daquelas e foi receber outros convidados que chegavam. Como namorado da anfitriã, era de bom tom receber a todos, mesmo que estivesse com vontade de conversar mais um pouco com o amigo. Ainda não tinha se desculpado pelo incidente do comentário, enfim... naquele momento não seria mesmo possível.
Mayra arregalou e piscou insistentemente os olhos como querendo enxergar direito e não pode deixar de perceber que Arthur estava acompanhado. Seu queixo caiu e seu coração disparou. Como agir numa situação daquelas? Esconder-se seria uma ótima saída. Esconder-se e mostrar pro mundo que estava morrendo por causa dele? Nunca. Aguentou firme e retomou a mão de Túlio, mesmo não trazendo mais o sorriso fresco que havia em seu rosto minutos antes.
Arthur caminhou até uma das mesas e puxou a cadeira para sua acompanhante, que delicadamente com um sorriso mavioso, deslizou até o assento. Mostrava uma desenvoltura perfeita, parecia flutuar sobre o chão. Como um perfeito cavalheiro, Arthur arrodeou a mesa e sentou-se ao seu lado em uma distância que ficavam quase frente a frente. Segurava uma de suas mãos e conversavam entre sorrisos de encantamento.
Dizer que Bruna era bonita, seria pouco, para não dizer pouquíssimo. Ela simplesmente era linda. Devia ter seus dezesseis ou dezessete anos e tinha aquela beleza sensual e pueril que deixar todos de boca aberta. Olhos agateados num castanho quase verde, pele muito branca que fazia com que seus cabelos negros e sedosos se destacassem. Como se não bastasse, ela tinha aqueles dentes em perfeito branco  com os incisivos centrais arredondados e um pouco a mostra, daqueles que dão sensualidade pelo simples fato de existir. Mayra não conseguia nem olhar para aquele lado da festa.
Sabe quando estamos com uma expectativa, sonhando com um momento que já vivemos milhares de vezes na nossa mente e de repente caímos da cama e percebemos que era somente um sonho? Foi exatamente assim que Mayra se sentiu. Sua cabeça rodopiava dentro de si mesmo e ela nem sabia mais se tinha coração. Não via sentido em ficar ali dançando com Túlio, por mais lindo que ele fosse.
―Licença, preciso tomar uma água.
Letícia que via toda a cena, inclusive a beleza extremada de Bruna, imaginou o que a amiga estivesse passando e quando a viu sair da pista, achou por bem acompanhá-la, pediu licença a seu par e saiu à francesa.
―Calma, amiga. Não vai desmoronar agora, né? Segura sua onda.
―Isso não poderia ter acontecido, Le. ― disse com a voz embargada e lágrimas incontidas desciam em grossas camadas.
― Calma, amiga. Mantenha a classe, ande devagar e sorria. Não vamos dar motivo pra esse povo falar da gente. ― Letícia segurava a mão da amiga e conduzia-a por trás do toldo revestido de flores. ― Por aqui.
Chegaram a uma saleta que dava para o escritório da casa, entraram e bateram a porta. Mayra pode então desmoronar.
― Isso não podia ter acontecido. ― falava repetidas vezes para si mesma.
Com o rosto enterrado nas mãos o choro de dor tomava conta daquele lugar. Letícia, sem ter muito o que dizer, segurava as mãos da amiga e pedia que ela se acalmasse.
― A gente nem sabe quem ela é.
― Não sabe, mas imagina, né? Se ela chegou com ele, claro que é a tal namorada que o Dário falou. 
― Então, amiga ― Letícia se enchia de calma na esperança de transmiti-la à Mayra ― você já sabia que isso poderia acontecer. Quando ele deixou de se comunicar, já era esperado que o que o Dário disse fosse verdade. ― falava pausadamente com os olhos fixos nos de Mayra que não cessavam de chorar.
Mayra levantou a cabeça,  deu um longo suspiro, retomou a calma, enxugou os olhos com as costas da mão  direita, pegou na bolsinha um kit básico de maquiagem, passou o pó e blush, retocou o batom e levantou-se decidida.
―Já sei o que eu vou fazer.

Continua...
terça-feira, 3 de junho de 2014

FESTA Parte I


     Todos os funcionários estavam a postos, a lista de convidados estava pronta e entregue a uma recepcionista baixinha, rechonchuda e simpática, metida num uniforme preto impecável, que receberia a todos na entrada do jardim e os encaminharia às mesas que estavam cobertas com toalhas douradas e detalhes vermelhos, sobre elas um arranjo de flores naturais também vermelhas, contrastando com o verde da grama bem cuidada e iluminada por pequenos pontos de luz que davam um ar romântico à festa.  Tudo muito delicado, de muito bom gosto.
     Um rapaz forte de olhos amendoados já se posicionara atrás de um console de vidro onde seriam produzidos coquetéis de fruta com ou sem álcool.  A sua frente a poucos metros ficava a piscina que fora coberta com um tablado de vidro para servir de pista de dança. Luzes das mais variadas cores já haviam sido testadas várias vezes para que nada desse errado. Olhando à esquerda víamos a mesa de doces dos mais variados sabores, tamanhos e formas e uma mesa em destaque que ficava em baixo de toldo bem iluminado revestido de flores naturais onde se encontrava o bolo comemorativo.
     O horário se aproximava e a aniversariante fazia os últimos retoques em seu quarto rodeada de maquiadores e cabeleireiras. Tifany era uma moça esbelta, de cabelos aloirados que escorriam até o meio das costas, fazendo poucas voltas aqui e ali. Sua beleza natural era exaltada por um vestido rodado, no estilo tomara que caia, vermelho de cetim francês e um sapato Roger Vivier de salto agulha que havia ganhado de seu pai quando este estivera na Europa.
      Um a um iam chegando. A música rolava solta. A banda paulista "5 a Seco" - por coincidência a preferida de Mayra - tocava seus maiores sucessos para recepcionar os convidados. Quando Mayra chegou a maior parte de suas amigas já desfilavam de lá pra cá num frenesi nervoso e exibicionista. Ela havia caprichado no visual e usava um vestido curto na frente e longo nas costas azul royal  de um tecido fino e leve com detalhes dourados que acentuavam sua beleza, os cabelos castanhos deslizam em voltas alongadas e uma franja cobria-lhe parte do rosto, mas deixavam a mostra seus olhos miúdos e brilhantes. Não há mais lindo que o olhar de alguém apaixonado.
     Mayra correu os olhos pela festa, mas nem sinal de Arthur. Letícia, sua amiga mais próxima lhe puxou pela mão fazendo-a caminha jardim a dentro.
     ― Tantos gatinhos, amiga. Vem cá que quero te apresenta a alguns deles.
      De que adiantava tantos gatinhos se Mayra só enxergava a um único que por sinal não estava ali ainda. Será que ele vem! Seus olhos percorriam os rostos um a um e nada de quem ela procurava. Resolveu relaxar e aproveitar a festa. Afinal estava ali para isso.
     Lá pelas vinte horas, todos na pista de dança, balançando seus corpos juvenis perfeitos e jogando charme numa brincadeira gostosa entre amigos, casais haviam se formado para uma dança solta e envolvente num clima propício a paquera. Mayra rodopiava com um rapaz  alto, de cabelos lisos e negros e de jeito sensual que lhe fora apresentado por Tifany. De repente, como tomada por um raio congelante, Mayra parou. Em seu rosto havia uma mistura de espanto e decepção, dor e estranheza. Sua mão que segurava a de Túlio foi escorregando até soltá-la por completo.


Continua...