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Razão e sentimento

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Uma menina-mulher sonharadora convicta, pore´m de uma racionalidade necessária.

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domingo, 8 de junho de 2014

Lagarta Listrada


Isso aconteceu há mais ou menos um ano. Era uma manhã de quinta-feira e as quintas-feiras eram muito puxadas, porque passavam o dia inteiro na escola. A mochila parecia de viagem, havia de tudo nela: xampu, sabonete, escova e creme dental, toalha de banho, perfume, pente e alguns ainda levavam uma blusa extra para, caso necessário, fazer a troca, sem falar nas meninas que ainda tinha todo o apetrecho de maquiagem e enfeites para o cabelo ― sabe como é, não vão tomar banho sem passar pelo menos um pó e um gloss ―. Passavam o dia na escola, reclamavam muito, mas quando tudo isso acabar irão sentir faltar e lembrar dos almoços, dos banhos, da algazarra e principalmente da amizade que fizeram. Acredito que por isso eram tão amigos.
Aulas da manhã tinham corrido como o esperado professores fazendo professorices e alunos fazendo alunices, só Mayra estava meio pra baixo. Havia brigado com Felipe, na verdade ela não gostava muito dele, queria terminar e não sabia o que dizer. Não sabia o que dizer, porque ela não sabia porque queria terminar, mas não senti por ele o que Carlos Drummond descreve em sua poesia. Havia lido As Sem Razões do Amor :
"Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse."
e não era nada daquilo que ela vivia. Quando o autor escreve ele parece estar completamente encantado pelo outro e ela nunca havia se encantado com Felipe, nunca se achou em estado de graça como é dito. Ela queria mais. Queria apaixonar-se de verdade. Queria viver um amor que só em falar no nome do amado, seu ser se envolvesse todo de uma energia mágica e, definitivamente, não acontecia nada daquilo. Estava mais para Manuel Bandeira em seu poema Namorados, sendo o inverso: Mayra seria o eu-lírico e Antônia seria o Felipe: No caso seria mais ou menos assim:
A moça chegou-se para junto do rapaz e disse:
-Felipe, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
O rapaz olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
O rapaz se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dele.
A moça prosseguiu com muita doçura:
-Felipe, você parece uma lagarta listrada.
O rapaz arregalou os olhos, fez exclamações.
A moça concluiu:
-Felipe, você é engraçado! Você parece louco.

Se desse pra trocar "louco" por "idiota" ainda ficaria melhor. Ela não entendia o que estava fazendo em um relacionamento como aquele. Mesmo assim com tantos motivos aparentes, não podia simplesmente chegar para ele e dizer: 

Felipe, é o seguinte, você é um idiota, não tem encantamento, não sabe me fazer suspirar e eu preciso suspirar.

Resolveu então escrever uma carta. Subiu as escadas que dava para as salas de aula, entrou e aproveitou o silêncio para se inspirar. Escreveu tudo numa enrolada só, mas estava bom. Era alguma coisa, depois mostraria para professora de Literatura que sabia escrever muito bem e era sempre cúmplice das meninas nessas histórias de amor e ela daria uma melhorada.

O problema foi que sentiram a falta de Mayra lá por baixo e pediram para que alguém subisse pra ver o que estava acontecendo. Que alguém que nada. Correram uns seis para vigiar a colega e descobrir o que ela estava fazendo sozinha na sala. Arthur foi o primeiro a entrar e arrancou a carta das mãos de Mayra. Ela soltou um gritinho e fez menção de correr para pegar a tal carta. Seria ridículo um menino lendo aquelas coisas horríveis que ela escrevera. Ainda que fosse uma menina.
Nesse instante, todos gritaram:
― Corre Arthur, corre!
E Arthur correu. Todos saíram atrás dos dois tentando impedir Mayra de pegar a carta de desamor. Arthur corria e virava-se pra trás mostrando a carta e fazendo que ia lê-la. Mayra gritava que não lesse entre risos e solavancos tentando soltar-se dos braços dos amigos. Todos riam, era uma perfeita diversão. Era aquilo que ela precisava para mudar aquela quinta-feira que não estava nada agradável. Soltou-se enfim dos amigos e correu para pegar a tal carta.
Ficaram frente a frente com corpos balançando. Ele com as mãos para o alto segurando a tal carta e ela tentando pegar, sorrindo e gritando ao mesmo tempo. Era uma mistura de alegria e vergonha. Já pensou se ele lesse aquilo para todos.
― Cartinha para o amado, hein? ― Arthur falava bricalhão.
Os outros já tinham até arranjado outra distração. E eles lá naquela luta boba e gostosa de entrega, não-entrega. Arthur parou. Mayra parou. E Mayra deu-se conta da situação. Ela estava olhos nos olhos com Arthur, aquele menino que ela nunca tinha reparado, que era seu amigo apenas. Mas naquele instante viu estrelinhas, ouviu sinos de amor. Era assim que ela queria sentir-se.
Arthur percebeu a estranheza da situação e entregou-lhe a carta meio sem jeito, pois pela primeira vez tinha reparado em Mayra, em seus olhos puxados e amendoados. Que olhos doces! Será porque ela está amando? Pensou .
O instante mágico se desfez e Mayra percebeu que era aquilo que ela queria sentir. Aquele frio na barriga, aquele olhar, aquela emoção e alegria. Não o que estava vivendo; uma relação sem graça, morta e descabida. Mas precisava arranjar uma boa desculpa quando Felipe perguntasse se ela estava apaixonada por outro.

A aula da tarde transcorreu bem, Arthur sentou-se ao seu lado e sempre que dava, sem que o professor percebesse ela falava sem som Cartinha de Amor.. zombando dela e não sabendo que era um fim de namoro. O professor pediu que fizessem duplas e lá estava Mayra e Arthur um ao lado do outro fazendo um trabalho Matemática. Por muitas vezes Mayra olhava para Arthur ainda abobalhada por não ter percebido que o amor estava ali ao seu lado.

3 comentários:

Myrella Dias disse...

TIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AMEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEI MEU DEUSSS! *-*

Johana disse...

liiiiiiiiiindos demais *--------------------*

Marilene Costa disse...

GOSTEI DEMAIS!!!!